— Guy Debord
REINO DOS EXAGEROS
Excesso real em todas as direções. Não é apenas espetáculo (imagem) nem apenas alienação (separação), mas hiper-tudo simultâneo: hiper-riqueza + hiper-pobreza convivendo no mesmo lugar; hiper-comida (obesidade) + hiper-fome; hiper-droga (crise de opioides) + hiper-medicação; hiper-violência + hiper-entretenimento; hiper-trabalho + hiper-lazer. Não são contradições que se resolvem dialeticamente - é acumulação monstruosa sem síntese. Tudo ao mesmo tempo, intensificado.
O que acontece quando a cópia não apenas substitui o original, mas quando o próprio original nunca existiu? Essa pergunta é central para entender a lógica da autenticidade nas redes sociais. A Hiper-realidade é um conceito onde a simulação substituiu o mundo real - a simulação se torna o próprio real, sem servir como cópia de nada. Na hiper-realidade, não lidamos mais com cópias imperfeitas da realidade, mas com modelos mais perfeitos, mais intensos, mais desejáveis que o próprio real.
Penso que estamos em transição - ainda numa "pré-hiper-realidade". Antes de prosseguir, é importante explicar dois conceitos: Simulação e Simulacro.
Simulação é a representação ou imitação de algo real. É quando criamos uma cópia que ainda mantém relação com um original existente - a imagem ainda reflete ou se refere a uma realidade subjacente.
Simulacro, por outro lado, é uma cópia sem original. É a representação que precede e determina o real, que não tem mais relação com qualquer realidade de base. O simulacro não imita nada - ele se torna sua própria realidade autônoma.
A noção de simulacro pode ser vista nas redes sociais, principalmente o Instagram onde se lida principalmente com a imagem. Toda a imagem é curada antes de ser postada, o melhor é mostrado para o público - a pessoa real ainda existe, mas apresenta uma simulação de si mesma operando através de fragmentos selecionados. Mesmo as pessoas comuns já operam dentro dessa lógica de forma não intencional. A melhor luz, o melhor ângulo, os pedaços mais palatáveis da vida - mas ainda mantém um certo senso de autenticidade, apesar da curadoria da imagem.
No caso dos grandes influenciadores, a pessoa real não existe mais. É uma simulação da pessoa operando um simulacro. Não é Pessoa + Simulação da vida, mas Simulacro + Simulação. A pessoa real desaparece da equação - resta uma "pessoa oca" imitando uma vida que também não é real.
Mas há algo além. A lógica do simulacro não para nos influenciadores - ela permeia todas as interações digitais contemporâneas.
Quando você interage com alguém no Instagram, não está conversando com a pessoa real - está conversando com a versão algorítmica dela: curadoria de posts, stories selecionados, persona construída. E você também não é você mesmo - é sua versão performática. No caso de grandes influenciadores, há equipes, ghostwriters, agências respondendo. Nenhum dos dois lados é real.
O algoritmo não mostra "o mundo" - mostra você mesmo de volta. O TikTok, o YouTube, o Instagram te mostram o que você já demonstrou gostar. Você não descobre nada novo - apenas confirma o que já é.
Aplicativos de inteligência artificial vendem relacionamentos simulados, mas não é IA genérica - é IA treinada em você, que aprende seus padrões e os espelha de volta. Cada mensagem sua alimenta o modelo que te responde.
Em todos esses casos, a equação é a mesma: Simulacro + Simulacro = Câmara de eco. Duas personas fabricadas interagindo, sem substrato humano autêntico em nenhum dos lados. Você não conversa com o outro - conversa com reflexos algorítmicos. É você falando consigo mesmo sem perceber.
A questão que fica é: o usuário acredita genuinamente (ou induzida)? Ou existe uma má-fé consciente - ele não acredita inteiramente, mas decide acreditar para obter os efeitos psicológicos (pertencimento, validação, entretenimento, intimidade)?
E talvez a pergunta mais perturbadora: se o simulacro produz os mesmos efeitos emocionais e psicológicos que o real, qual a diferença prática? O simulacro não seria, nesse ponto, funcionalmente equivalente ao real?
Eu penso qual seria o próximo passo depois da Hiper-realidade. Minha hipótese seria a "hiper-vida", mas não é algo bem definido - pode seguir duas direções:
O digital invade completamente o real. As noções de imagem e a lógica das redes se tornariam a norma no dia a dia. Não que já não exista uma noção de como nos apresentamos ao mundo, mas dessa vez seria um policiamento muito maior - a imagem deveria ser 100% otimizada, o que fecharia o espaço para o alternativo e algo mais sincero. A curadoria deixaria de ser opcional para se tornar obrigatória.
Ou seria o inverso: o real seria completamente substituído pelo digital. Como foi proposto pelo metaverso, a vida seria inteiramente transferida para simulações e simulacros. Se posso ter versões melhoradas e perfeitas de qualquer coisa, por que precisaria sair e ver pessoalmente? Por que encontrar imperfeições e obstáculos pelo caminho? O simulacro não apenas substitui o real - ele o torna desnecessário, obsoleto.
Em ambas as direções possíveis da Hiper-vida, a lógica permanece: tudo ao mesmo tempo, intensificado. O Reino dos Exageros não desaparece - apenas muda de substrato. Do material (hiper-riqueza + hiper-pobreza) ao simbólico (excesso de simulacros), do concreto ao virtual, a saturação continua. Vivemos na transição entre o excesso que ainda se pode tocar e o excesso que só se pode simular. Ou talvez já vivamos nos dois simultaneamente - mais uma contradição que não se resolve, apenas se acumula.